O ano era de 2013.

O começo daquele ano separava dois rivais tradicionais, Flamengo e Fluminense. O Fluminense acabara de conquistar seu segundo título brasileiro em três anos, contava com o forte patrocínio da Unimed e todo mundo queria jogar no clube, O elenco campeão brasileiro de 2012 contava com jogadores do porte de Fred, Deco, Rafael Sóbis, Diego Cavalieri, Wellington Nem, Thiago Neves, Rafael Moura, Jean, um timaço, uma seleção.

O Flamengo chegava mal a 2013. Fez um péssimo Campeonato Brasileiro, sendo quase rebaixado. Ainda se recuperava de traumas como a perda de Ronaldinho Gaúcho e mudava de gestão. A nova gestão encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello decidia colocar o pagamento de dívida acima de tudo montando um time modesto. Abrira mão de seu artilheiro Vagner Love por não ter como pagar seu salário.

 Nada unia Fluminense e Flamengo naquele momento, apenas uma coisa. O fato de um dos clubes estar muito melhor financeiramente que o outro e dessa forma “tomar” seus jogadores sem nenhum trabalho.

No começo de 2012 o Flamengo tentava renovar o empréstimo de Thiago Neves que fizera uma boa temporada de 2011 pelo clube. O Fluminense se meteu na negociação e não fez proposta de empréstimo, fez logo de compra, levando o jogador.

Em 2013 o Flamengo tinha sob empréstimo um promissor lateral-direito chamado Wellington Silva que se não me engano pertencia ao Volta Redonda. O Flamengo, com dificuldades, tentava renovar o empréstimo, o Fluminense veio e comprou o lateral. Lateral que provavelmente seria titular no Flamengo preferiu ser reserva do Fluminense.

Isso tudo apenas cinco anos atrás e por que falo dessa época? Porque o Flamengo acaba de anunciar Henrique Dourado, o principal jogador do Fluminense na última temporada, o artilheiro do Campeonato Brasileiro. O Flamengo chegou, fez oferta financeira e um quebrado Fluminense não teve como não vender.

A torcida do Fluminense em 2013 cantava “Urubu otário, o Celso Barros tem dinheiro pra car…” e a do Flamengo se sentia humilhada. Hoje a torcida do Flamengo se orgulha de torcer por um clube saneado financeiramente e a do Fluminense vê perplexa seu elenco se desmanchar e perder seu ídolo pro “inimigo”. Por quê?

Podemos invocar a fábula da cigarra e da formiga. O Fluminense teve por quase 18 anos o melhor patrocínio do país. Muito dinheiro foi investido em contratações espetaculares, na busca de títulos importantes, mas nada foi feito para que o clube se estruturasse e estivesse pronto para quando a Unimed saísse. A patrocinadora saiu e o clube continuou gastando alto, como contratando o zagueiro Henrique ao Napoli e pagando salários e gatilhos salariais acima do que poderia pagar. A bolha explodiu em 2016 quando teve que abrir mão de Fred por não ter mais como pagá-lo e degringolou de vez quando Pedro Abad chegou ao poder.

O Flamengo fez trabalho de formiga. Trabalhou forte no saneamento nos anos de 2013 e 2014 até que em 2015 viu uma abertura financeira para contratar Paolo Guerrero. Em 2016, trouxe Diego e 2017, Everton Ribeiro e Diego Alves. Continua pagando dívidas, continua com controle forte financeiro, mas o que já conseguiu pagar com novos patrocínios permitem que o clube tenha grandes jogadores e não atrase salários.

O jogo mudou em cinco anos. Hoje é o Flamengo que tira jogadores do Fluminense.

Isso é definitivo? Não, o futebol é cíclico, é uma gangorra. Para lembrar de todos os jogadores da campanha tricolor de 2012 tive que recorrer a sites que me mostraram que o Flu conquistou o título em cima de um esquálido Palmeiras praticamente rebaixado. Olhem como está o Palmeiras hoje. Os dois inverteram os papéis e nada impede que daqui a cinco anos estejam inversos de novo.

O Fluminense é um clube gigante, com uma marca valiosíssima e talvez tenha que passar alguns anos de aperto para voltar a ter grandes times, fazer o processo que o Flamengo fez e enquanto isso nada garante que o Flamengo será multicampeão. Apesar do saneamento financeiro, isso não vem ocorrendo e o clube vem fracassando no futebol. Nada impede que o Fluminense, por exemplo, seja campeão carioca em cima do Flamengo com gol do sucessor do Henrique e o mesmo perdendo um pênalti pelo Flamengo. Essa é a magia do futebol.

Em 2013 o Fluminense estava no alto da gangorra e o Flamengo embaixo, hoje e o inverso. Essa gangorra já teve cada um em cima ou embaixo muitas vezes nos últimos 100 anos e continuará assim.

Por isso são rivais, porque um precisa do outro para ser grande.

Para se equilibrar na gangorra.

Twitter – @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar

[related_posts limit=”3″]