Após longo interregno está de volta a coluna “Sobretudo”, assinada pelo publicitário Affonso Romero. No retorno o tema são as elites brasileiras e sua opção preferencial pelos ricos.

Dar Dinheiro aos Ricos os Torna Vagabundos

A frase não é minha. É do jornalista Leonardo Sakamoto (ver no link http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2010/10/10/dar-dinheiro-aos-mais-ricos-os-torna-vagabundos/). Mas eu curti tanto que resolvi “filosofar” um tantinho em cima dela. 

Muita gente por aqui critica os programas sociais do governo direcionados aos pobres. Acham que estão mirando no PT, esquecendo que alguns bons programas foram mérito do governo do FHC, do PSDB. O PT tratou de assumir a bandeira. Em política, o que é bom se copia. Ninguém pode alegar ser o pai da criança, até porque na década de 1930 os EUA (e o mundo) conseguiram sair da maior crise econômica da história do capitalismo a partir de bolsas sociais implantadas pelo Roosevelt, no New Deal. 

Diferentemente do que dizem, os fatos comprovam que as políticas sociais (tanto do FHC, do PT ou do Roosevelt) não produzem vagabundos, mas aquecem a economia, distribuem riqueza (entre pessoas, classes e até regiões), criam mercado interno, retornam em empregos e produtos, estimulam o trabalho, a educação e o empreendedorismo. 

Mas o maior esquecimento é de que, no Brasil, nós temos uma longa tradição de “bolsas” públicas doadas aos mais ricos. E o que mais me impressiona é que disto ninguém reclama. Senão, vejamos. 

Há décadas os governos emitem títulos públicos e tratam de manter os juros entre os mais altos do mundo para estimular o investimento na dívida pública. É um ciclo vicioso que drena recursos da produção. Os governos pagam um bônus aos mais ricos pelo dinheiro que o modelo excludente na economia tratou de colocar no bolso deles. É um estímulo à concentração de renda sem nenhuma produção, trabalho ou mérito. 

Ou seja, um estímulo a que a classe empresarial não trabalhe, mas invista em roleta financeira. Governos repletos de gente que ganha a vida sem trabalhar perpetuaram esta armadilha da qual é praticamente impossível o país sair sem uma moratória interna – que romperia a ordem financeira, trazendo consequências imprevisíveis. 

Disso o leitor nunca reclamou, não é mesmo? Contra isso, você nunca pediu que se fizesse uma passeata, não é? Pois é… Bolsa-família não pode, mas “bolsa-especulação” você apóia. 

Quando um empresário brasileiro coloca algum capital no “risco” do jogo capitalista, você bate palma. Mas quando ele perdia o dinheiro dele, lá ia o BNDES cobrir o rombo, com a desculpa de que era preciso preservar os empregos. Bolsa-família não pode, mas “bolsa-falência” você é a favor. 

Quando a roleta especulativa afundou parte do sistema financeiro brasileiro, você não protestou contra o PROER, que tirou dinheiro do Tesouro para cobrir o rombo dos banqueiros. Bolsa-família não pode, mas “bolsa-picareta” você apóia. 

A produção cultural no Brasil ficou tão dependente do dinheiro público que sem ele (através das leis de incentivo) nada mais funciona. A iniciativa privada não arrisca em cultura sem incentivo fiscal, e você acha que está tudo bem. Daí, a cultura é de elite, porque quem decide os projetos que recebem grana é a elite. E o dinheiro do imposto de todos vai patrocinar eventos e produtos culturais que excluem 99% da população. Bolsa-família não pode, mas “bolsa-pseudo-intelectualidade” você leitor apóia. 

A mesma coisa vai valer para as universidades, para pesquisa científica, para investimentos públicos, para todos os aspectos da vida brasileira. Durante 500 anos, o Brasil tirou recursos dos mais pobres para direcioná-los aos mais ricos. Isso criou uma elite preguiçosa, senhores coloniais escravagistas cujos bisnetos sentam-se refastelados em seus varandões da casa-grande até hoje. 

A comparação da elite econômica brasileira com seus pares de primeiro mundo chega a ser constrangedora. Nas questões de patriotismo, formação acadêmica, capacidade de poupança e reinvestimento, inovação, empreendedorismo, competitividade, visão de futuro, consciência social, capacidade de trabalho, tudo isso nós levamos goleada. Este quadro é agravado por décadas de estímulo governamental à preguiça através de dinheiro público fácil que esta gente sempre teve. 

Quando o Brasil começou a inverter este fluxo de recursos, não apenas através de programas de bolsas, mas também incentivando o acesso público ao ensino superior e incrementando o mercado interno, milhões saíram da linha de miséria e se incorporaram ao mercado consumidor. Centenas de milhares de famílias de classe média se tornaram ricas. O empreendedorismo explodiu no país: a cada dia, desde 2007, o crescimento econômico sem concentração de renda faz surgir 19 novos milionários na Brasil, um número nunca imaginado. Empresários que você não conhecia há 10 anos comandam empresas que estão adquirindo grandes marcas estrangeiras – que passam a ser nacionais. 

O Brasil contraria as teorias econômicas tidas como verdades absolutas e prova que é possível crescer ao mesmo tempo que distribui riquezas. O poder real de compra do brasileiro assalariado médio dobrou em uma década. A periferia emergiu, anda de avião, compra em shopping, viaja ao exterior, troca de carro, compra tevê de plasma, compra ou reforma imóveis, cria moda. 

Bastou inverter o fluxo. Bastou diminuir o que (ainda) se paga de “bolsas” aos ricos e direcionar recursos e atenções aos mais pobres. Isso não é obra de um programa social, tampouco de um partido.

Isso é obra de uma Nação que, pela primeira vez na história, pode se chamar assim: Nação. 

E você, que nunca protestou na vida contra a “bolsa-especulação”, a “bolsa-falência”, a “bolsa-picareta” etc., vem protestar agora contra o bolsa-família do PSDB, que o PT universalizou. Você, que nunca abriu a boca para falar mal de uma país que era campeão mundial da injustiça social e da concentração de renda, agora protesta contra um país que é líder regional e passou a ser temido e respeitado pelos maiores players econômicos do planeta. 

Nessa mudança, você acha que perdeu. 

Desculpe, amigo, mas ou você pensa que é muito rico (e insensível) ou você é um otário. E estamos de volta.